Em um encontro municipal de mulheres agricultoras, realizado no ano de 1999 na comunidade de Pinhalão, município de União da Vitória, foi concebida a ideia de criar uma Troca de Sementes Crioulas para favorecer o livre intercâmbio das variedades entre as famílias e comunidades. O grupo de mulheres de início teve apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Prefeitura Municipal e da AS-PTA- Agricultura Familiar e Agroecologia. Neste primeiro encontro realizado foram resgatadas mais de 100 variedades de sementes crioulas de diversas espécies e variedades de milho, feijão, centeio, trigo, arroz, batata, batata doce, amendoim, sementes de hortaliças, sementes de árvores nativas e também raças de animais de pequeno porte como porcos, galinhas, cabritos entre outros. Após este encontro, surgiu a ideia de se fazer algo mais amplo reunindo mais comunidades do município e aí surge a 1ª feira municipal de sementes crioulas, realizada no ano de 1999, em União da Vitória- PR.

Neste mesmo período várias iniciativas de resgate, multiplicação e troca de sementes surgem em todo o estado e país enriquecendo e fortalecendo a conservação das sementes crioulas e mudas de diversas espécies, ampliando gradativamente o número de guardiãs e guardiões. Porém, estes espaços estavam desarticulados e suas ações, em muitos casos, eram isoladas. Diante disso é que surge a necessidade da formação de redes de sementes, como a própria ReSA.

 

  •  REDE SEMENTES DA AGROECOLOGIA (ReSA)

 

Motivados por um longo histórico de trabalho em defesa da agrobiodiversidade que remonta os anos 1980 em vários territórios do Paraná e pela Campanha em defesa da semente crioula, “Patrimônio dos povos a serviço da humanidade”, lançada no Fórum Social Mundial pela Via Campesina, várias organizações e movimentos desenvolveram ações referentes a essa temática, como feiras, festas, resgate de variedades e identificação de guardiões e guardiãs no Paraná. De todo esse processo surge a Rede Sementes da Agroecologia (ReSA).

A ReSA nasce para ser um espaço articulador e organizativo de todas essas iniciativas, que dizem respeito às sementes, dando maior visibilidade e capacidade política de enfrentamento às diversas ameaças sofridas e, principalmente, para fortalecer a Agroecologia como base para a produção de alimentos saudáveis, garantindo maior autonomia às famílias produtoras e consumidoras, promovendo o conhecimento e a multiplicação das variedades e das experiências. 

Desta forma a ReSA tem a função de ser um espaço de acesso à informação, de unificação e de luta pelos direitos dos camponeses e camponesas, agricultores e agricultoras agroecológicas, povos indígenas e comunidades tradicionais, congregando as diferentes iniciativas e replicando-as. 

Semente é todo material propagativo vegetal e animal: cabe ressaltar que a Rede compreende que sementes são todas as formas de vida utilizadas para a multiplicação de uma espécie, ou seja, grãos, tubérculos, ovos e animais, são considerados sementes e fundamentais para a manutenção da biodiversidade e a produção de alimentos. Neste sentido, as sementes são patrimônio da humanidade e direito fundamental para a manutenção da vida.

 

  • Caracterização da ReSA

 

A ReSA é espaço de troca de saberes, articulador das ações voltadas à produção, à multiplicação, ao melhoramento e à preservação das sementes, de resistência às constantes ameaças biológicas, químicas, socioeconômicas, ideológicas e legais de restrição de uso das sementes, de divulgação de ações, de denúncia e de intercâmbio.

Tem como bandeira iniciativas contra as ameaças que se estruturam, no âmbito dos três poderes, para destruir quaisquer iniciativas que promovam o fortalecimento e a perpetuação das sementes na soberania dos camponeses e das camponesas. É uma organização informal, descentralizada que respeita as diferenças regionais, bem como, os processos realizados pelas famílias, suas articulações e também os diferentes espaços organizativos existentes.

Desta forma, a ReSA, por meio da articulação e do diálogo das diferentes iniciativas relacionadas à preservação, a produção, a reprodução, a comercialização e a troca de sementes agroecológicas, busca assegurar aos Povos o livre acesso às mesmas, como direito humano, garantindo a produção saudável de alimentos e a sua preservação para as presentes e futuras gerações.

Também objetiva articular as diversas iniciativas de conservação e manutenção da agrobiodiversidade, incidindo politicamente na manutenção do direito dos camponeses, camponesas, agricultores, agricultoras, povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, comprometidos com a Agroecologia e contribuindo para a soberania dos povos.

Para tanto, busca promover o resgate e melhoramento de sementes crioulas e varietais para os sistemas agroecológicos, acesso aos bancos de estatais de germoplasma, articulando a oferta e a demanda pelas sementes, através da organização e divulgação de festas, feiras e outros eventos relacionados, assim como promover a viabilidade e articulação das diversas unidades de beneficiamento das mesmas. Esta ação se propõe incidir politicamente nas instâncias de tomada de decisão, bem como na elaboração de materiais informativos e didáticos relacionados à temática.  

 

  • Organizações e movimentos sociais que compõem a ReSA

 

Compõem a ReSA a Associação Brasileira de Amparo à Infância (ABAI) – Fundação Vida para Todos, a Associação de Estudos Orientação e Assistência Rural (ASSESOAR), a Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia (AOPA), a AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia, a Rede Ecovida, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Fundação Luterana de Diaconia/Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (FLD/CAPA) Núcleo Verê, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Terra de Direitos, o Instituto Contestado de Agroecologia, o Coletivo Triunfo, o Centro Ecológico Terra Viva, a Terra Indígena Pinhalzinho, a Terra Indígena Laranjinha, a Terra Indígena Ywy Porã, a Associação dos grupos de agricultura ecológica São Francisco de Assis e a Associaçao Morretes Agroflorestal Ecológica (AMAE) .